-Vamos Laura, - disse secamente uma mulher de cabelos castanhos e olhos amendoados - você precisa se arrumar se não quer perder aquele bendito ônibus!
- Okay, mãe - Disse Laura de forma entediada. Levantando-se do sofá onde estava sentada, ela foi para seu quarto terminar de arrumar a mala da escola sem nem se importar com o tom frio e levemente irritado da mãe. Depois de 4 anos, Laura já estava acostumada com o mau humor e a frustração pouco contida que acometiam seus pais alguns dias antes dela partir para um novo ano letivo na escola de Bruxaria. Seus pais eram trouxas e, apesar de ler histórias de contos de fadas para as filhas quando eram pequenas e fantasiar com elas naquela época, eles simplesmente achavam isso uma insanidade sem tamanho, não acreditavam que isso pudesse existir e não conseguiam acreditar que sua filhinha fosse tão "estranha". No fundo, Laura pensava que seus pais tivessem medo de magia.
Cerca de uma hora depois ela atendeu ao chamado de sua mãe e foi para a copa almoçar. Sua irmãzinha, Celina, de uns 10 anos, estava recusando sua comida e exijindo a sobremesa.
- Tudo bem, tudo bem querida - respondeu sua mãe enquanto se levantava e ia até a geladeira pegar uma travessa com um enorme musse de chocolate em cima e acrescentava docemente - Eu fiz seu doce preferido, Celzinha.
A criança empurrou o prato com sua comida rejeitada para o lado e apanhou o outro cheio de doce que sua mãe oferecia, lambendo os lábios. Uma segunda consequência do começo de Laura numa escola de magia que os pais dela odiavam era os inúmeros mimos que seus pais ofereciam à Celina, que tomou o cargo de filha preferida depois que descobriu-se que Laura era uma bruxa.
Laura recebeu um pedaço bem menor que o da irmã com a justificatifa que ela iria "enjoar no ônibus" se comesse demais. Ela não reclamou; não valia a pena irritar a mãe por um pedaço de musse logo no seu último dia de férias.
Horas depois, ela e sua família saíram de casa em direção à rodoviária da cidade. O ônibus era a forma pela qual os alunos do CEBES chegavam à escola, que ficava no centro da cidade do Rio de Janeiro. Ela reparou que o tempo na capital de SP estava realmente feio, várias nuvens negras cobriam a cidade e despejavam uma enorme quantidade de água sobre os prédios, ruas e pessoas distraídas que haviam esquecido seus guarda-chuvas.
Laura se despediu dos pais e da irmã de forma não muito calorosa e entrou no ônibus parado.
A viagem foi tranquila apesar do mal tempo e Laura foi conversando com uma ou outra colega que também pegava o mesmo ônibus para a escola mas a maior parte do tempo só ficou olhando as gotas d'agua baterem no vidro da janela imaginando o que o novo ano letivo iria lhe reservar.
Quando chegaram na escola ela levantou os olhos pra a fachada do prédio e inúmeras lembraças engraçadas e felizes passaram por sua mente. Ela realmente se divertia muito ali. Seus amigos eram bons e confiáveis, os professores ensinavam bem e, na maioraria das vezes, eram legais e os prédios eram bonitos e confortáveis.
Continuou caminhando em direção ao salão onde o jantar seria servido, ela estava com um pouco de fome. Se serviu com prazer da lasanha de quatro queijos que estava à sua frente, recusando a salada somente porque hoje era o primeiro dia na escola e portanto um dia de festa.
Ao final do jantar a diretora, Sílvia, levantou-se e pronunciou algumas palavras, as quais Laura não ouviu por que estava prestando mais atenção no relato das férias da colega ao seu lado. Mas ela não precisava ouvir, pois todo ano ela ouvia a mesma coisa: que as listas com os nomes dos companheiros de quarto estavam no final do corredor.
Ela levantou-se e correu junto da maioria dos alunos pra descobrir se iria dividir o quarto com alguém que ela já conhecessse.
Mel!, pensou Laura. Ela a conhecia mas não pesoalmente, apenas sabia quem era. Laura foi em direção ao quarto que iria ocupar o resto do ano e abriu a porta vendo que ainda não havia ninguém ali.
Ela escolheu sua cama e se deitou nela com os braços atrás da cabeça esperando pela sua nova colega de quarto e torcendo para que as duas se dessem bem e viessem a ser, posivelmente, amigas.